Nayara de Souza Pereira e Raquel Vitarele Gimenes Pereira
Diagnóstico de uma instituição particular do município de Viçosa
Introdução
A adequação do ambiente físico às crianças, em uma instituição de Educação Infantil, é bastante discutido e constitui um fator de grande importância no desenvolvimento da criança. Esse fator é um auxílio no trabalho dos profissionais, como também, das crianças dentro de um ambiente escolar.
Em uma análise da qualidade desse trabalho é necessário considerar não só o ambiente físico, mas o planejamento e organização das atividades que são propostas às crianças.
Se considerarmos as atividades desenvolvidas pelas crianças como “trabalho”, faz-se necessário buscar para os envolvidos uma melhor qualidade e bem estar em sua realização, assim como para o trabalho do professor, para que ele possa realizar a tarefa de forma eficiente de acordo com as suas possibilidades físicas e psicológicas.
Essa melhoria na qualidade de vida no trabalho educacional, do professor e a criança, não pode ser dissociada, pois esses se influenciam mutuamente. Ao melhorar o trabalho do professor, na maioria das vezes, esse melhora o trabalho da criança, exercendo tarefas mais eficazes e que visam um mesmo objetivo, o desenvolvimento integral das crianças.
Fazer a análise ergonômica do trabalho considerando a categoria professores que atuam no campo de trabalho da educação infantil, pode nos evidenciar os diferentes problemas que estes vivenciam como comprometimento físico, psicológico e social desses trabalhadores e das crianças. No caso deste estudo, o foco foi os problemas psicológicos e sociais evidenciados em professores e crianças, considerando seu cotidiano de trabalho.
Descrição dos objetivos
O presente estudo foi realizado com o objetivo de analisar a relação de trabalho da criança e professor, em uma instituição da rede particular do município de Viçosa. pontuar os constrangimentos vivenciados, levantar e discutir, ao final, recomendações para uma melhor qualidade de vida no trabalho educacional, na perspectiva da ergonomia.
Desenvolvimento
Melhoria na qualidade de vida no trabalho de professores da Educação Infantil
O conhecimento científico para auxiliar no aumento da qualidade de vida no trabalho é um objetivo da Ergonomia. A Ergonomia para tanto busca estudar uma situação de trabalho visando adaptá-la ao homem, a partir da análise das condições técnicas, físicas, ambientais, humanas e organizacionais.
Segundo Ferreira e Righi, 2009:
“A Análise Ergonômica do Trabalho – AET é uma Intervenção, no ambiente de trabalho, para estudo dos desdobramentos e conseqüências físicas e psicofisiológicas, decorrentes da atividade humana no meio produtivo. Consiste em compreender a situação de trabalho, confrontar com aptidões e limitações à luz da ergonomia, diagnosticar situações críticas à luz da legislação oficial, estabelecer sugestões, alterações e recomendações de ajustes de processo, ajustes de produto, postos de trabalho, ambiente de trabalho” (FERREIRA; RIGHI, 2009)
A ergonomia permite demonstrar o que precisamos para conhecer o homem e usar esse conhecimento para melhorar o seu trabalho e, consequentemente, ocasionar uma melhora na qualidade de vida.
O trabalho com crianças pequenas requer, como qualquer outro trabalho, formação adequada dos profissionais, sendo a formação mínima exigida a normal nível médio, como definido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei 9.394/96, de 4 de dezembro de 1996.
Quando uma pessoa não está preparada para realizar atividades que desenvolvam integralmente as crianças, conhecendo as etapas de desenvolvimento e realizando atividades planejadas de acordo com as possibilidades de aprendizagem de cada faixa etária, não terá um bom desempenho em sua tarefa de educar.
O profissional que atua com crianças de 0 a 6 anos de idade deve considerar na organização da sua tarefa a importância do brincar, que perpassa toda a vida da criança e dá sentido a ela.
Portanto, a análise do trabalho em busca do bem estar de professores e crianças é essencial para se ter um trabalho eficiente, que não cause problemas as partes envolvidas e, principalmente, revele conclusões de melhoria e mudança nas atividades realizadas para, por fim, obter uma melhoria na qualidade de vida.
A influência dos estímulos externos para o desenvolvimento infantil
Um dos fatores que influenciam no desenvolvimento infantil são os externos, explecificado pelo ambiente físico e social. Sendo que nesse estudo, dar-se-a foco no espaço físico e na transformação do ambiente da sala de aula.
Nessa perspectiva, da possibilidade de em um mesmo espaço físico existirem vários ambientes onde as crianças, dentro de uma instituição de educação infantil, possam usufruir desses ambientes e ampliar seus aspectos: social, cognitivo, afetivo, dentre outros, é que Piaget (citado por Kramer, 2000), afirma que “o desenvolvimento resulta de combinações entre aquilo que o organismo traz e as circunstâncias oferecidas pelo meio [...] e que os esquemas de assimilação vão se modificando progressivamente, considerando os estágios de desenvolvimento”.
Portanto, o ambiente para criança em uma instituição deve ser pensado para facilitar a ação das crianças dando às mesmas autonomia.
Além disso, é necessário que o professor realize modificações nesse ambiente, dividindo-os em áreas, centros ou cantos de interesses. Cada área terá um objetivo diferente. De acordo com Fernandes (citado por Santos, Resende e Calegario, 2004) algumas áreas de interesses são indispensáveis a um programa, sendo elas:
- Área de Blocos : é uma área de manipulação de blocos de madeira, papelão, ou outro material de construção. A construção com blocos contribui para o aumento da intuição, imaginação e percepção; facilita a liberação da fantasia e a representação mental; e propicia o desenvolvimento da coordenação motora, a resolução de problemas e a interação social.
- Área de Brinquedo Dramático: as crianças assumem diversos papéis da sociedade, não só representando as diversas funções que eles exercem, mas também aprendem a resolver conflitos e a como lidar com ansiedades. Utilizam materiais em miniatura para representar a casa, geralmente, usando roupas e acessórios.
- Área Silenciosa ou de Leitura: as atividades nesse ambiente são mais tranqüilas, requerem relaxamento e maior concentração da criança pra ouvir e contar histórias de diversas formas. Também é utilizada para conversas e cantar músicas.
Área de Ciências: as crianças têm oportunidade de realizar experiências diversas e de examinar e observar seres vivos. Estimula à curiosidade e o espírito de observação, investigação, a resolução de problemas, ampliando vários conhecimentos.
- Área de Artes: local de expressar as idéias, sentimentos e emoções e desenvolver a criatividade, coordenação, imaginação, linguagem, etc. É preciso haver de materiais utilizados para pintura como tintas e pincéis.
- Área de Brinquedo Manipulativo: área de manipulação de diferentes tipos de brinquedos e jogos que trabalham o encaixe, agrupamento, combinação, desenvolvendo a coordenação motora, criatividade, socialização, percepção, raciocínio, etc.
- Área Externa: local de condições necessária para a criança exercitar-se fisicamente, contendo equipamentos fixos para ampliar as possibilidades de movimentação.
De acordo com a divisão do espaço físico em áreas o professor pode adequar as atividades para cada criança, trabalhando de forma tanto individual como em grupos, compartilhando saberes e experiências, ou seja, interagindo com as outras crianças, com o professor e com os materiais propostos.
O trabalho com a educação especial no ambiente educacional infantil
O processo de aprendizagem deve responder aos desafios das diferenças. Só o ensino que leva em conta essas condições é que pode de fato responder à realidade social. A democracia só estará sendo verdadeiramente sedimentada em nosso país, quando a questão social tiver o espaço de política de governo, sendo que este deveria prestar mais atenção às pessoas com algum tipo de deficiência.
Como diz Mantoan (1997), “Cabe à escola encontrar respostas educativas para as necessidades de seus alunos e exigir dela uma transformação”. Portanto, cabe a instituição escolar se preparar para receber e atender as necessidades dos seus educandos, para inserir nas classes regulares crianças e jovens com necessidades educacionais especiais e possibilitando aos mesmos, um desenvolvimento integral.
Para tanto, é preciso um trabalho em equipe dentro das escolas. Essa não é só uma responsabilidades dos professores de alunos com deficiência, mas da escola como um todo. Segundo Goffredo (1999) “Tanto a educação infantil quanto na educação fundamental, a meta principal é satisfazer as necessidades específicas de aprendizagem de cada criança, incentivando a criança a aprender e desenvolver o seu potencial, a partir de sua realidade particular”.
Nesta perspectiva, a proposta de inclusão sugere mudanças profundas na concepção de educação e de escola. É o que aponta Mittler (2003) quando diz que “a inclusão não diz respeito a colocar as crianças nas escolas regulares, mas a mudar as escolas para torna-las mais responsivas às necessidades de todas as crianças”.
Conclusões
A parti dos dados expostos e conseguidos pelo trabalho de campo, por meio das observações e as respostas do questionário apresentadas pelos professores, podemos pontuar algumas dificuldades na realização das tarefas diárias com as crianças.
A maior dificuldade encontrada na sala de cinco anos, sendo ela a amostra do estudo, e que também é um problema para as outras professoras questionadas na instituição da população escolhida é a falta do auxílio de uma assistente em sala de aula, para ajudar no acompanhamento e desenvolvimento das atividades propostas às crianças.
Na observação da população desse estudo, vimos que as atividades são planejadas de acordo com as possibilidades que a professora tem de conseguir, da melhor forma possível, dar conta de suas tarefas diárias sozinha, já que possui somente adulto com as crianças. A falta de outro profissional, geralmente, causa stress entre as crianças e professora e é considerada uma barreira para a realização de algumas atividades mais elaboradas. Por isso, algumas atividades são restritas, para não ocasionar tumultos durante a efetivação da mesma, o que limita a capacidade e potencialidade das crianças de criação, não proporcionando a participação ativa em todas as atividades propostas.
Outro fator que pode ser considerado um limitador nesse trabalho é a falta de estrutura física da sala. Por ter um espaço pequeno, essa não proporciona as crianças, em todos os momentos, a autonomia e liberdade de expressão para desempenhar atividades de suas preferências. As crianças realizam as mesmas atividades, podendo ser coletivamente ou em grupos menores, sem ter muita opção por escolher ou não desenvolver uma determinada atividade.
Ao considerar que cada criança desenvolve-se em um tempo diferente e precisam de experiências diversificadas, estaremos considerando as individualidades e potencialidades de cada um, incluindo todas no processo de aprendizagem.
A divisão da sala em áreas de interesse seria uma solução considerada necessária e pertinente, se a mesma dispusesse de um espaço para essa adaptação. Como não é a realidade dessa sala, uma outra solução, que mantém a mesma ideia da divisão por áreas, seria confeccionar caixas que pudessem receber diferentes tipos de materiais considerados atrativos para as crianças.
Cada caixa oportunizará a criança o desenvolvimento de aspectos diferentes, como nas áreas de interesse. Como nessa sala as crianças já dispõem de um bom material de jogos que trabalham o raciocínio, concentração e a lógica, bem como já desempenham atividades de artes e na área externa, esses aspectos não precisam ser tão focados no planejamento dessas caixas. Para melhorar o trabalho da professora é necessário pensar na ampliação do desenvolvimento da representação e imaginação, visto que as crianças não têm muito acesso a matérias que contribuam para expandir esses conhecimentos.
Poderá então haver caixas com utensílios domésticos, aparatos médicos, diferentes roupas e acessórios, “vendinha”, blocos de madeira com animais, homenzinhos com animais, materiais de mágicos, fantasias, entre outras possibilidades, para que fosse experimentado a diversidade de temática junto às crianças.
Em cada momento de atividades dentro da sala, serão propostas três atividades diferentes como, por exemplo, um jogo que trabalha a formação de palavras, uma caixa de interesse com utensílios domésticos e atividade de artes com desenho livre. Sempre tendo em vista o planejamento que já era feito em algumas atividades diárias, em que uma atividade a professora ofereça maior assistência e interferência, por haver somente uma pessoa na sala, para permitir que a criança seja estimulada em suas possibilidades.
O que é proposto portanto, é o aumento das possibilidades de se vivenciar a autonomia nas atividades planejadas, que deverão ser realizadas, em todos os momentos dentro da sala de aula, através de oficinas, como são definidas na instituição, no entanto de maneira diferente, utilizando para tanto de “caixas de interesse”.
Percebemos através da análise do estudo ergonômico do trabalho na educação infantil, que o planejamento é fundamental para a melhoria da qualidade de vida dos profissionais e das crianças dentro de um contexto escolar. O planejamento e a organização do espaço na educação infantil têm o papel de promover o interesse pelo processo de tomada de decisão, o desenvolvimento da autonomia e das interações entre as crianças. Logo, “educar pode ser traduzido por oportunizar à criança situações que lhe possibilitem aprender a ser, a tornar-se, a criar, a participar e a transformar-se, a si, ao ambiente, ao contexto onde vive” (SIGNORETTI; MONTEIRO; DIAS; DAVÓLIO; LÉSSIO, 2000).
Referências Bibliográficas
Brasil, MEC. Leis e Decretos. LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei 9.394/96, de 4 de dezembro de 1996.
Ferreira, M. S.; Righi, C. A. R. Análise ergonômica do trabalho. Disponível em: <http://www.pucrs.br/fau/pg_professores/mf_15.pdf>. Acesso em 10 de maio de 2009.
KRAMER, Sônia. Com a pré-escola nas mãos. São Paulo: Ática, 2000.
SANTOS, M. L. R. A educação infantil e o lúdico: teoria e prática. Viçosa: Ed. UFV, 2004.
MANTOAN, M. T. E. Ser ou estar: eis a questão. Explicando o déficit intelectual. Rio de Janeiro, WVA, 1997.
MITTLER, P. Educação Inclusiva; contextos sociais. Porto Aegre: Artmed, 2003.
GOFFREDO, V. L. F. S. de. A Escola como espaço Inclusivo In___ Salto para o Futuro: Educação especial: tendências atuais. Secretaria de Educação a Distância. Brasília: Ministério da Educação, SEED,1999.
SIGNORETTI, A. E. R. S.; MONTEIRO, K. K.; DIAS, L.M.D.O.; DAVÓLIO, R. A. C.; LÉSSIO, S. F.. Revista do professor. In__ Formas de trabalho. Porto Alegre, v.16, nº64, 2000


